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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Entre a causa da casa e meu resto

Imagem retirada da internet


A casa já não nos pertence mais. O teto de telha transformado em cacos de saudade. O transtorno familiar se iniciara, acontece e pode terminar a cada instante, a cada lágrima em pó que cai de minha mãe, a cada choro de dó de meu pai, a cada inconsciência minha.
A rua torna-se casa então, e então nos tornamos meninos na janela da casa livre olhando para o jardim cuidado pelo jardineiro governo.
O papelão, caixa de sapato e lata de suco, tornaram-se a moeda da nossa sobrevivência.
Eu falo com meu pai sobre as minhas dúvidas da vida. Por que um menino de apenas cinco anos precisa saber o que é sofrer? Por que um menino não pode ser feliz como os outros são?
E papai para me tirar o desespero responde que sabendo o que é sofrer, faz-nos acreditar que existe alguma luz no final da rua mesmo que seja apenas a lanterna do rico desesperado e infeliz. E sobre a felicidade alheia, ele insiste em me dizer que não é pelo sorriso ou rosto molhado que devemos julgar a vida das pessoas, que na verdade nunca devemos julgá-las. As ações alheias para conosco nunca deve ser vista como piedosa, de dó, ou de medo, mas sim como um milagre de Deus dando graça à nossa honestidade.
Papai era sábio de mais, quieto demais, amava mamãe demais. Já mamãe era quieta demais, desesperada demais, sofria sem saber o porquê mesmo sabendo que existem porquês.
Meu pai batalhava por nossa proteção e mamãe a enfarinhava e cheirava tudo. E eu via.
E mamãe acordou, e xingou, e saiu, e roubou, e suspirou, e fez isso por algum tempo, e morreu.
E eu?
Eu cresci, aprendi, sorri, e não senti falta do que ela era, e sim apenas do que ela representava.
Não roubei, não matei, ouvi papai, e estudei, e aprendi que homem de gravata também rouba, e vivenciei homem de farda matar papai porque eu tinha jogado a bola na janela da vizinha e ela queria me bater, e ele me protegeu, e morreu.
Se queres saber como me virei? Saiba que visitei papai por anos, denominei-me fênix para tentar trazê-lo volta, iludi-me, desacreditei-me, separei-me de mim mesmo, sumi das pessoas do mundo, fingi que não existia, quis mudar o mundo como sendo um homem invisível, mas num pequeno gesto visível, sensível e banal, apaixonei-me, me machuquei e aprendi que o homem, salvo alguns, não são criaturas de Deus e sim membros do corpo do seu próprio ego, órgãos da sua falta de humildade, honestidade e do seu medo de si mesmo e dos seus iguais. E enfim, sobrevivi.

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